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contracepcaoO acesso à contracepção segura e eficaz é um dos tripés do acesso a direitos reprodutivos. No entanto, 55% das mulheres brasileiras dizem não terem planejado suas gestações. Em uma país onde mulheres são assassinadas por abortos inseguros esse é um número demasiadamente grande para ser ignorado e que não pode ser explicado com o gasto discurso que culpabiliza as mulheres por não se protegerem. O fenômeno recente de questionamento sobre a hegemonia de métodos hormonais e a consequente demanda por opções tem demonstrado que simplesmente não há real possibilidade de escolha em termos de contracepção.

Ouço com atenção o relato de mulheres que me procuram em consultório refletindo atônitas que usam pílula há 20 anos e que nunca pararam para pensar se era o que realmente queriam. Contam sobre a sensação de liberdade e prazer em terem ousado parar a pílula. Com o intuito de expandir um pouco esse olhar, acompanho um grupo de facebook que reúne aproximadamente 140 mil “exiladas” dos métodos hormonais. Nesse espaço, mulheres escolarizadas em sua maioria brancas, trocam informações sobre o tema. Debatem efeitos colaterais comuns a muitas delas, o temor dos possíveis riscos à saúde, o desejo de ter controle sobre o próprio corpo, a crítica à maneira como percebem que a indústria farmacêutica molda o discurso e prática médica e a dificuldade de acesso a métodos não hormonais.

As mulheres sentem que não são ouvidas em suas queixas

O relato de que seus sintomas são negligenciados e frequentemente não associados ao uso da pílula ou outros métodos hormonais é recorrente. Dores de cabeça; sintomas gastrointestinais como náuseas, vômitos e dores de estômago; alterações emocionais como irritabilidade extrema, tristeza e até ideação suicida, diminuição de libido são alguns dos relatos repetidos.
Depois de serem submetidas a sucessivas sugestões de mudança de composição de seus anticoncepcionais, em geral amostras-grátis retiradas da gaveta no consultório, elas próprias resolvem deixar o método para se livrarem dos sintomas. “Parei por conta própria” dizem…já que repetidas vezes são desencorajadas ou desautorizadas por profissionais. E questionam-se: “por que não fui levada a sério?”. Afirmam terem perdido qualidade de vida por anos, sentem-se traídas por quem deveria ouvi-las cuidá-las.

É claro que são sintomas que envolveriam uma avaliação minuciosa sobre alimentação e estilo de vida e por isso demandariam um olhar sistêmico e atento para separar o joio do trigo. Aquilo que poderia mesmo estar relacionado à pílula daquilo que pode ter relação com outras causas. Mas para isso as mulheres precisariam ser ouvidas de verdade. Algo que parece não acontecer nos serviços de saúde e que tem como causa um imbricado sistema que envolve gestão de serviços de saúde, modelo de atenção, influência da indústria farmacêutica e de equipamentos médicos na prática e muito importante, uma construção da mulher como histérica e hipocôndrica e a expectativa de que aguente sem reclamar as “consequências” de ser mulher acatando sem questionar as condutas propostas por profissionais. Um exemplo disso foi o relato que recebi de uma mulher afirmando ter sido encaminhada a um psicólogo porque sua recusa à pílula seria patológica.

Essa atitude não é danosa somente às mulheres. Médicos(as) também perdem a oportunidade de avaliar esses padrões de queixas, questionar-se e fazer a ciência avançar no entendimento dos efeitos da contracepção hormonal sobre a fisiologia das mulheres. Infelizmente, a maioria dos estudos sobre contracepção hormonal são pagos pela própria indústria, o que impede que as respostas que as mulheres estão se fazendo sejam respondidas. Afinal, que indústria teria interesse em investigar se a libido das mulheres realmente despenca com o uso de contracepção hormonal?

aixaAo invés disso, propagandeiam formulações que supostamente não interferem na libido, sem que haja qualquer estudo de qualidade capaz de demonstrar isso, e pior, com o entendimento de fisiologia mostrando exatamente o contrário. E médicos(as) continuam a ser educados por representantes de laboratório com folhetos resumindo os potencias benefícios de suas pílulas com efeitos colaterais em letras miúdas de rodapé.

Desde muito cedo, a pílula como panaceia para qualquer problema

Cólicas menstruais, TPM, dor nas mamas, irregularidade menstrual, ovários policísticos, endometriose, as mulheres percebem que diante de qualquer uma dessas queixas a resposta será invariavelmente a pílula. Após anos usando pílula para tratar ovários policísticos, falham em conseguir engravidar após deixarem a medicação. Aí começam a entender que SOP é uma síndrome metabólica que requer mudança de estilo de vida, principalmente alimentares e que a pílula apesar de melhorar sintomas de acne e fazer sangrar regularmente (um sangramento de privação e não uma menstruação), nunca tratou de verdade o problema e pode inclusive tê-lo piorado já que um de seus efeitos é aumentar a resistência à insulina. Diante da dificuldade de engravidar procuram seus cuidadores e recebem prescrição de indutores de ovulação ou são encaminhadas para a reprodução assistida.

Uma engrenagem perfeita traduzida pelo fato de que a maioria das mulheres que buscam uma gravidez por via tecnológica não sabem dizer quando é seu período fértil. É que a máquina é alimentada desde cedo: a pílula costuma ser prescrita para meninas que acabaram de menstruar. Ao invés de uma conversa franca e acolhedora sobre respeitar e conhecer o próprio corpo, sobre entender seu período fértil, sobre fazer somente aquilo que tem desejo, sobre saber dizer não, sobre autoconhecimento e prazer, sobre a irregularidade menstrual ser parte de um processo de amadurecimento: um atalho. A pílula apazigua a mãe que teme uma gravidez na adolescência e é coniventemente convencida de que será o melhor para a menina. Em nome de ciclos regulares, da resolução da acne e dos problemas relacionados à auto estima tão comuns nessa faixa etária, a pílula é estabelecida tendo como efeito secundário a contracepção. Assim, além de nunca pararem para discutir sobre opções, perde-se a oportunidade de ouro de conversar sobre o impacto da alimentação sobre a pele, sobre a prisão que podem ser os pradrões de beleza a serem alcançados, sobre os caminhos para uma vivência saudável da sexualidade.

Os riscos à saúde causados pela pílula não são devidamente discutidos

  A divulgação de casos de trombose foi um dos maiores estopins para o grande movimento de mulheres fugindo da pílula e de médicos ‘pilulistas’ como elas carinhosamente apelidaram médicos(as), seguindo o trend‘cesaristas’.  Uma matéria em revista de grande circulação trazia histórias de mulheres vitimizadas: internações em UTI, embolias pulmonares, amputações e morte. As redes sociais possibilitaram que essas histórias de encontrassem e que esses eventos ganhassem nome e rosto (Afetadas pela pílula) e passassem a ser percebidos como não tão raros assim. Expondo inclusive a grave falha na fiscalização de eventos adversos por parte da Anvisa. Apesar de ser um risco absoluto  baixo, a chance de uma mulher usuária de pílula ter uma trombose é duas vezes maior do que em uma não usuária. Mas se a história familiar e as orientações para prevenir uma trombose nos casos de trauma, imobilização, não forem devidamente realizadas esse risco pode ser ainda maior.

É importante esclarecer que esse risco é diferente para os diferentes tipos de progesterona nas pílulas combinadas (as que mais diminuem hormônio masculino, mais risco de trombose apresentam) e também para as diferentes formas de apresentação dos contraceptivos (oral, injetável, adesivo, anel, implante).

Se por um lado, as mulheres estão mais cientes dos riscos desse grave evento adverso por outro há também grande atenção da mídia para esses casos, tanto por sua gravidade quanto por seu gosto pelo espetáculo. Fala-se pouco de outros problemas relacionados ao uso da pílula. Recentemente dois artigos importantes foram publicados a partir da grande coorte holandesa ‘The Danish Sex Hormone Register Study”,  que reúne quase dois milhões de mulheres. O primeiro associa o uso de contracepção hormonal à prescrição de antidepressivo, principalmente entre adolescentes e o segundo a um maior risco de câncer de mama.

As mulheres querem acesso ao seu próprio corpo, entender quem são, uma ode ao ciclo menstrual

Depois de uma vida rejeitando a menstruação e entendendo-a como desnecessária e até prejudicial, graças entre outras à “Sangria Inútil” de Elisimar Coutinho  e de panfletos distribuídos em consultórios médicos como o Viva Sem Menstruar, as mulheres começam a perceber que ciclar, ovular, menstruar pode ser benéfico, libertador e prazeroso. Algo que diferentes paradigmas de saúde (ayurveda, medicina tradicional chinesa, antroposofia) já entendem há muito tempo, a ciência também começa a entender a menstruação como um sinal vital.  Algo que pode nos ajudar a entender como vai a saúde de uma mulher. A produção de estrógeno e progesterona garantida pela ovulação tem funções para além das reprodutivas. Há uma íntima relação entre esses hormônios e outros eixos neuro-hormonais que fazem com que seu equilíbrio garanta saúde mental e cardiovascular, massa muscular e óssea, bom funcionalmento da tireóide, saúde das mamas. Além de benefícios fisiológicos, as mulheres começam a entender que ciclar pode ser usado para o autoconhecimento.

Observar-se durante o ciclo pode gerar conhecimento de si retomar um poder simbólico que durante muito tempo esteve nas mãos da medicina. Perceber que o muco cervical, entendido por tanto tempo como patológico, e por vezes medicado, tenha na verdade um certo padrão conforme o andar do ciclo. Perceber que o humor muda conforme o ciclo, que há um período de maior criatividade e expansividade e um momento de recolhimento e que a TPM pode ser na verdade uma janela de oportunidade para entendermos e observarmos aquilo que precisa ser modificado em nossas vidas. Ao invés de percebê-la como um problema que precisa ser medicado e ocultado. Que situações me chateiam o mês inteiro mas tornam-se insuportáveis no período pré-menstrual? Que situações de opressão, de abuso de poder (no trabalho, com companheiro/a) tornam-se visivelmente inaceitáveis nesse período? A autora Emily Martin em seu “A mulher e o corpo” já afirmava que se as mulheres se dessem conta do conteúdo que vem à tona no período pré-menstrual e da sua potência poderiam fazer revolução.

Mas diferente disso, somos menosprezadas e ridicularizadas uma vida inteira por nossos ciclos, “não a leve a sério, ela está de TPM”. Nossa “natureza” foi durante muito tempo utilizada como discurso para nos manter longe da vida pública, uma mulher que gesta, amamenta, que tem alterações emocionais que a levam a rompantes, não pode ser levada a sério. Não pode votar. Não pode ocupar posições de liderança. O que seria da família? Já ouviram esse discurso né? Mas e se nossa natureza for furiosa? For um grande furacão capaz de mexer com as estruturas mais sólidas?  Inclusive capaz de reiventar o corpo de mulher?  Seria assustador para “cidadãos de bem” mas um movimento sem volta. As relações entre profissional de saúde e mulheres também não será mais a mesma. Uma mulher que sabe quantos ml menstrua, que sabe manusear um espéculo, que entende quando ovula, que observa um gráfico de percepção menstrual e sabe dizer o que acontece com seus hormônios, que sabe que a cólica é de ovulação e que o muco é de fertilidade, tem muito menos chance de ser medicalizada, de realizar exames desnecessários. Está em melhor posição para dialogar com o médico(a). E os(as) profissionais precisam estar preparados para acompanhar e estimular esse passo.

Mas e os benefícios dos hormônios?

“Eu quero dizer, agora o oposto do que disse antes…” Apesar do exposto anteriormente, é preciso afastar discursos extremistas. E por isso é importante deixar claro que o que denunciamos é a prescrição indiscriminada, hegemônica e sem abertura para o questionamento e  escolha. De maneira alguma podemos queimar uma opção contraceptiva. A contracepção hormonal pode ser escolha de uma mulher depois de alertada sobre todo o exposto acima. Ela pode ser usada para tratamento de mulheres que sofrem de dores como endometriose, adenomiose de forma combinada a outras estratégias.  Podem ser usadas para que pessoas trans possam construir o corpo que desejam. Pode ter um impacto sobre a diminuição das chances de câncer de ovário, risco que precisa ser pesado aos outros anteriormente colocados. A pílula de emergência pode salvar uma mulher das consequências de uma gravidez indesejada em um país onde realizar um aborto inseguro pode matá-la.

O que as mulheres que dão Adeus aos hormônios estão dizendo é que a relação paternalista com profissionais de saúde que supostamente sabem o que é melhor para elas, não cabe mais em nosso horizonte. Que profissionais de saúde precisam se atualizar com relação a métodos não hormonais já que o acesso a informação sobre percepção de fertilidade, diafragma e DIU de Cobre continua sendo escasso. Tanto é que as mulheres precisam organizar listas de profissionais da rede suplementar e pública que “aceitam” inserir DIU de Cobre. As mulheres estão mostrando como podem organizar-se e produzir e difundir informação sobre elas mesmas, nos moldes dos grupos de auto-ajuda (self help) dos anos setenta. Grupos como o Adeus Hormônios, DIU de Cobre (oficial), Diafragma e Percepção de Fertilidade , todos no Facebook, mostram como mulheres são capazes de construir informação de qualidade, ajudar-se mutuamente e ainda atuar politicamente, já que orientam que as mulheres denunciem a recusa a métodos não hormonais nas ouvidorias do SUS e de planos de saúde.

Mais informações em:

Pílula anticoncepcional: da revolução sexual à revisão do seu uso

Halana Faria – Ginecologista e obstetra – Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde – São Paulo e Florianópolis

 

 

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2 respostas a “Adeus hormônios: O que podemos aprender com o movimento que tem levado mulheres a deixar a contracepção hormonal”

  • Oi Halana,

    Muito difícil encontrar profissionais que nos apoiam. Tenho buscado conhecimento sobre o diafragma. Recentemente fui fazer a medição em um médico, ele disse que não poderia usar por que o colo do meu útero era muito distant. Isso procede?

    Sendo que outros profissionais mencionaram o fato de ele ser próximo. Fiquei confusa.

    • O colo do útero se movimenta no decorrer do ciclo. Você chegou a provar medidores no consultório? É o único jeito de saber se consegues usar ou não. Além do diafragma tradicional (Semina) que precisa ser medido tem o Caya (importado) de tamanho único. Sugiro entrar no grupo de diafragma do FB. As meninas compartilham lista de profissionais em várias cidades que medem.
      Abc e boa sorte

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